Governança de Ativos Digitais: O Risco Legal Além do Blockch
Por que a segurança do blockchain não protege seu patrimônio?
A segurança tecnológica do blockchain não impede a perda de ativos digitais. A robustez do protocolo é irrelevante se a gestão das chaves privadas — as senhas que controlam os fundos — for falha. A perda de patrimônio ocorre com frequência por vulnerabilidades na camada humana e jurídica, não por falhas na criptografia.
O risco real para investidores e tesourarias de empresas reside em processos frágeis de custódia. A discussão sobre segurança costuma ignorar o ponto de maior fragilidade: a governança. A ausência de um plano de contingência, o controle das chaves concentrado em uma única pessoa ou contratos imprecisos com exchanges criam uma vulnerabilidade crítica. Proteger o patrimônio digital exige, portanto, uma estrutura de governança que defina quem movimenta os ativos, como o acesso é auditado e o que ocorre em cenários de incapacidade, morte ou desligamento de um executivo.
Responsabilidade de Administradores: Quem paga pela perda dos criptoativos da empresa?
Para empresas com criptoativos em tesouraria, a falta de governança na custódia de ativos digitais pode levar à responsabilização pessoal de seus gestores. O administrador possui um dever de diligência na gestão do patrimônio da companhia, conforme o artigo 153 da Lei das S.A. (Lei nº 6.404/76).
Caso a empresa perca ativos digitais por uma gestão negligente das chaves — como a centralização do acesso em um único executivo sem um protocolo de contingência — os administradores podem ser obrigados a responder com seu patrimônio pessoal pelos prejuízos. Esse risco afeta diretamente não apenas empresas que utilizam criptoativos como reserva de valor, mas também sócios de fintechs, gestoras de patrimônio e herdeiros que podem encontrar os ativos bloqueados por falta de um plano de acesso.
Leitura prática da Barbero
Temos observado que o ponto de falha catastrófica na custódia de ativos digitais por empresas raramente é a tecnologia. O erro recorrente é a ausência de um 'protocolo de soberania digital' formalizado em um instrumento societário. Empresas alocam milhões em tesouraria de criptoativos, mas tratam a gestão das chaves privadas com a mesma informalidade da senha da rede Wi-Fi, concentrando-a em um único executivo. Na prática, o que costuma inviabilizar a recuperação do patrimônio não é um hack sofisticado, mas a saída abrupta, o falecimento ou um litígio com esse executivo. A consequência econômica é a transformação do ativo digital em um 'cofre perdido'. A distinção técnica que muitos ignoram é que não basta ter um backup da chave; é preciso ter um procedimento de governança, aprovado em ata de diretoria ou previsto no acordo de sócios, que legitime o acesso e o uso por outras pessoas em cenários de contingência.
Sem essa base jurídica, mesmo a posse de uma chave reserva pode não ser suficiente para movimentar os fundos legalmente.
Estruturando a Governança para Proteger o Patrimônio Digital
A mitigação do risco na custódia de ativos digitais é uma questão de governança, não apenas de tecnologia. A solução passa pela implementação de medidas preventivas e estruturadas, como:
Carteiras de Múltipla Assinatura (Multi-sig): Exigem que múltiplas chaves privadas aprovem uma transação, descentralizando o poder e eliminando pontos únicos de falha. Sua implementação deve ser amparada por regras claras no contrato ou estatuto social, definindo os detentores das chaves e o quórum para movimentação.
Políticas de Segurança e Contingência: Um documento formal deve estabelecer os procedimentos para armazenamento de chaves, controle de acesso e, crucialmente, as ações a serem tomadas em caso de perda de acesso, falecimento ou incapacidade de um responsável.
Integração ao Planejamento Sucessório: Para pessoas físicas, o planejamento patrimonial deve contemplar os ativos digitais. Isso pode ocorrer via testamento ou por meio de estruturas de holding, com instruções precisas e seguras para que herdeiros acessem os ativos sem que as chaves sejam expostas indevidamente.
Essas medidas transformam um ativo de alto risco operacional em um componente gerenciável e seguro do patrimônio.
Riscos de não agir
Perda patrimonial completa e irreversível dos ativos digitais por roubo, perda ou inacessibilidade das chaves privadas.
Responsabilização civil de administradores por omissão e negligência na proteção do patrimônio digital da companhia.
Bloqueio dos ativos em processos de inventário, tornando-os inacessíveis para herdeiros por falta de planejamento sucessório.
Disputas societárias sobre o controle e a titularidade das carteiras da empresa na ausência de regras de governança.
Exposição a fraudes internas e externas facilitada pela ausência de controles auditáveis como carteiras de múltipla assinatura.
Como esse problema costuma ser resolvido na prática
A resolução dessa vulnerabilidade patrimonial inicia-se com um diagnóstico completo, mapeando todos os ativos digitais, a forma de custódia e quem detém as chaves de acesso. A partir daí, desenha-se uma estrutura de governança, definindo a adoção de tecnologias como carteiras de múltipla assinatura (multi-sig) e estabelecendo protocolos para acesso, movimentação e contingência. Essa estrutura é então formalizada em documentos societários, como o acordo de sócios ou o estatuto social, e complementada por políticas internas. Para pessoas físicas, a estrutura é integrada ao planejamento patrimonial e sucessório, garantindo que as instruções de acesso sejam legalmente válidas para herdeiros. A Barbero Advogados atua na concepção e implementação dessas estruturas de governança, combinando o conhecimento em direito societário e planejamento patrimonial com a compreensão das especificidades dos ativos digitais.
O que você deve fazer agora
Mapeie todos os ativos digitais, documentando em que carteiras (wallets) e exchanges estão armazenados.
Identifique quem possui acesso às chaves privadas ou senhas e avalie a vulnerabilidade de concentrar o acesso em uma única pessoa.
Avalie a implementação de carteiras de múltipla assinatura (multi-sig) para ativos relevantes, exigindo mais de um responsável por transação.
Revise os termos de serviço das exchanges utilizadas, verificando as cláusulas de responsabilidade em caso de falhas de segurança ou insolvência.
Elabore uma política de segurança e um protocolo de contingência para casos de perda de acesso, desligamento ou falecimento do responsável.
Quando procurar orientação especializada
A busca por orientação jurídica torna-se prudente quando os ativos digitais representam uma parcela significativa do patrimônio pessoal ou da tesouraria da empresa. É igualmente indicada quando não existe um plano claro para a sucessão desses ativos ou quando o controle das chaves está centralizado em um único sócio ou executivo. A necessidade é imediata se a empresa planeja aumentar sua exposição a criptoativos ou se já ocorreram incidentes de segurança, ainda que sem perdas.
Base legal
Lei nº 14.478/2022 – Marco Legal dos Ativos Virtuais
Lei nº 6.404/1976 (Lei das S.A.) – Art. 153 (Dever de Diligência do Administrador)
Código Civil (Lei nº 10.406/2002) – Arts. 1.784 e seguintes (Direito das Sucessões)
**Barbero Insight**
A maioria das perdas de ativos digitais não decorre de falhas tecnológicas, mas da ausência de estruturas jurídicas que prevejam o falível: o fator humano. A governança não é um acessório, é o cofre.

Comentários